BARBACENA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nascido a 18 de abril de 1908, na ilha da Sardenha, em Sassari, este homem de grandes virtudes, de sabedoria, de senso e de prudência, adotou o Brasil como sua segunda Pátria.

De Franco um dia se libertou, como todo bom discípulo se livra do mestre. Todavia, ninguém se liberta sem carregar os estigmas do cativeiro; por isso, manteve sempre em sua memória o retrato vivo do preceptor que o encaminhou na vida acadêmica.

E Luigi Bogliolo fez das faculdades onde ensinou um viveiro de inteligências. Seu nome, pelas obras realizadas e pelo espírito generoso, merece a consagração da posteridade.

Em um grande esforço de memória, vou procurar sintetizar a participação de Bogliolo no desenvolvimento e engrandecimento da Faculdade de Medicina da Fundação José Bonifácio, de Barbacena.

Pouco tempo depois da fundação desta faculdade, a partir de 1971, Barbacena passou a contar com a colaboração não apenas de um professor reconhecido, mas de um nome, um mito, uma esperança.

A história começou numa manhã daquele ano, na minha sala – a número 27 do quinto andar da Faculdade de Medicina da UFMG – , com a invasão de uma comitiva presidida pelo Dr. João Almeida Barros Lima, que me convidou a assumir as disciplinas de Patologia e Anatomia Patológica na faculdade recém-fundada. Respondi aos ilustres membros da comissão que sozinho eu não poderia assumir tal compromisso. Seria necessária, e somente após a adesão do Professor Bogliolo à idéia, uma conversa com os demais professores do Departamento de Anatomia Patológica. Então, mais tarde, uma posição seria tomada.

O prometido foi cumprido. Sem o sim do mestre, nada feito. E a resposta do ilustre Professor Bogliolo foi: – Como, Pedro, será possível mais esta tarefa?!

Ponderei que Barbacena era a minha cidade natal e que por isso gostaria de ajudá-los. Outra pergunta: – Você toma a frente?

Disse-lhe sim.

Aceito o convite, assumimos também as disciplinas de Histologia, Embriologia e Citologia. Por longos anos, o ensino destas matérias foi ministrado pelos professores da equipe do Mestre Bogliolo, primeiramente na Escola Agrotécnica e, depois, no prédio situado à Praça Presidente Antônio Carlos.

Aparentemente Bogliolo não rezava por nenhuma cartilha política, mas conhecia muito bem a história de Barbacena e a dos Bias e dos Bonifácios.

Dizia-se agnóstico. É de Pascal o dito: "Duvidar de Deus é crer na sua existência".

Bogliolo e os estudantes. Embora extremamente severo e exigente, a ponto de despertar temor em alguns, era admirado pela maioria, por sua inteligência, seus conhecimentos amplos, muito além da matéria curricular, sobretudo por seus dotes humanísticos, ponderação e dignidade com que exercia a difícil missão de ensinar. Idealista como Platão, mas não menos realista que Aristóteles, mestre de sucessivas gerações de médicos e discípulos, foi exemplo de dedicação aos ideais do ensino e da pesquisa.

A cobrança. Porque ensinava bem, julgava-se com direito de cobrar: provas escritas de quinze em quinze dias e, ao fim do semestre, uma prova oral final – terror dos estudantes, ele sabia; mas não abria mão da avaliação. Sem comentários ... Nós também passamos por isso.

Disciplina e responsabilidade. Duas facetas impressionantes de Bogliolo: apesar de seu lugar de chefe, obedecia cegamente à distribuição da matéria, às datas e horários pré-estabelecidos pelo coordenador das disciplinas. Jamais impôs a sua vontade. Homem de elevado senso de responsabilidade se sobrepôs aos parâmetros de uma vida comum. Nas aulas instruía e educava.

Amor ao trabalho e à ciência. Mesmo já envelhecido, alquebrado pelo tempo e pela doença, ele trabalhava, dando aos moços, seus discípulos e amigos, o exemplo de uma vida que era símbolo de fé e de virtude. No amor à ciência encontrou a suprema felicidade.

O investimento. Uma de suas grandes paixões – senão a maior – era investir na formação dos jovens, estimulando-os a exercitar o raciocínio e a atividade crítica. Gostava de estar perto de gente nova; de gente que não recuava dos desafios; de gente perseverante, que plantava e que colhia. Depois que formou uma primeira escola – Chapadeiro, Iracema, Tafuri e Pedro Raso –, era necessário expandi-la, formando novos outros discípulos. Tal qual aconteceu em Belo Horizonte, também em Barbacena lapidou diamantes para transformá-los em brilhantes.

Embora com receio de ser traído pelo esquecimento, vou tentar me lembrar do nome de algumas jóias lapidadas, monitores de Histologia e de Patologia, que se tornaram professores ou brilhantes profissionais da medicina.

O primeiro monitor, Miguel Ratti, passando em concurso se engajou na equipe do Professor Zerbini, que, em 1968, conquistou a admiração do mundo ao fazer o primeiro transplante de coração no Brasil.

Nivaldo Hartrung Toppa, formado em 1980, fez residência, mestrado e doutorado na Faculdade de Medicina da UFMG e depois foi contratado como professor de Anatomia Patológica em Belo Horizonte.

Marcílio Faraj, inteligência privilegiada, mestre em Cardiologia, professor em Barbacena.

Jair Leopoldo Raso, mestre, quase doutor, ex-patologista, neurocirurgião de primeira grandeza e professor de Neuroanatomia; nomeado como um "virtuose da arte cênica” por João Amílcar Salgado, que o comparou ao teatrólogo, ficcionista e educador vienense Yanke Carl Djerassi.

João, Manoel, Sílvio, Dalmo e Izabel, ex-monitores que se dedicaram a outras especialidades.

Por último, e de propósito, lembro-me de Ana Margarida Miguel Nogueira, carinhosamente apelidada de portuguesinha, recentemente chamada por Deus em plena atividade universitária. Formada em Barbacena em 1979, foi monitora de Histologia e Anatomia Patológica. Depois de contar cerca de 10 mil neurônios no coração de chagásicos, fez residência, mestrado e doutorado, com raro brilho, na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Franzina, simples de vida e de costumes austeros, entregou-se de corpo e alma ao trabalho. Forte em espírito, sem pendência, com serenidade, enfrentou a breve vida com grande saber acumulado. Foi também responsável pela formação de muitos mestres e doutores. Numerosas foram as suas publicações – em torno de oitenta – em revistas nacionais e internacionais.

Uma delas sobre o comportamento do H.pylori, co-autoria de Mônica Maria Demas, foi contemplada como o melhor trabalho em Congresso Internacional realizado em Kopenhagen, em 2005. Sem dúvida alguma, Ana Margarida foi, entre os discípulos de Barbacena, a que melhor encarnou o sentimento deixado por Bogliolo.

Neste momento peço a todos os presentes, primeiro, um minuto de silêncio e de oração e, depois, uma salva de palmas para esta grande lusa-barbacenense.

Sem me ater ao mérito, volto a destacar outras realizações de Bogliolo na terra das rosas.

Bogliolo e a Universidade. Foi um homem de seu tempo, participando de todos os fatos importantes referentes à atividade universitária, nos quais interveio como um dos melhores entre seus contemporâneos.

Bogliolo editor. Deixou para a posteridade dois livros, de Patologia Geral e de Anatomia Patológica, escritos em linguagem de ouro, clara e objetiva. Muitos capítulos da sua última edição foram escritos no Hotel Grogotó e no Laboratório de Anatomia Patológica, após dias estafantes de trabalho na faculdade.

Bogliolo pesquisador. Participou de numerosas pesquisas de primeira linha e de ressonância internacional. A astúcia na interpretação das lâminas e peças anatômicas, extraindo delas dados e minúcias que outros não viam, tornou Bogliolo, sem dúvida nenhuma, o maior entre os maiores morfologistas. Vejam, por exemplo, seus registros sobre a forma hepatesplênica da esquistossomose, a clareza como separou a esquistossomose da cirrose, e os trabalhos sobre a forma aguda toxêmica da esquistossomose mansônica.

Bogliolo idealizador. A idealização da construção do anexo da faculdade, batizado com seu nome, constituído de duas salas de aulas (teórica e prática), serviço de documentação e sala de necropsia – esta foi palco da primeira aula sobre o cadáver realizada por Bogliolo em 1978, a qual durou sete horas (de 16 a 23 h), um caso de carcinoma hepatocelular. Este empreendimento atesta o reconhecimento da Diretoria desta faculdade ao trabalho desenvolvido pelo mestre. Bogliolo cooperou, também, na ampliação da biblioteca da faculdade.

As sessões anátomo-clínicas implantadas por ele na Clínica de Heitor Annes Dias, no Rio de Janeiro, tiveram continuidade em Belo Horizonte, Barbacena, Uberaba, Uberlândia, Vitória, Montes Claros, Itajubá e em outras faculdades do país, onde os professores da Escola de Bogliolo ministraram cursos de Anatomia Patológica – sem dúvida, na minha opinião, a melhor aula do curso de Medicina. A presença de Bogliolo e também de seus discípulos, aqui e acolá, muito contribuiu para estimular o espírito de indagação e crítica de professores e alunos. A sessão anátomo-clínica funciona também como um verdadeiro controle de qualidade dos serviços médicos prestados pelas faculdades.

O relacionamento de Bogliolo com os outros professores, notadamente com os professores de Clínica e de Semiologia, foi sempre muito gentil e respeitoso. O educador procurava resolver problemas cruciais, vividos por ele ou por seus comandados, com tranqüilidade – porque esta é o farol da alma dos sábios. Foi assim, por exemplo, que nos despedimos certa vez desta Faculdade de Medicina. Terminada a nossa participação, deveríamos cumprir o objetivo traçado pelo coordenador da equipe, ou seja, "sempre que possível, entregar a cadeira a um de seus discípulos". Antes de passar o bastão ao Professor Renato Maciel, a equipe do Professor Bogliolo permaneceu em Barbacena durante quinze anos (de 1971 a 1986 ), com um breve interstício de ausência.

Bogliolo foi muitas vezes premiado e escolhido pelos alunos como patrono, paraninfo, homenageado especial. Algumas das homenagens prestadas pela classe médica, como por exemplo a que recebeu na Academia Nacional de Medicina e também sua posse na Academia Mineira de Medicina, infelizmente passaram despercebidas até para os seus seguidores mais próximos.

Reverência maior foi a sua inclusão entre os vinte médicos mineiros mais importantes do século passado.

Como intelectual de primeira grandeza, figura de talento e bom senso, agricultor da alma e da mente, seria já considerado imortal; assim também por outras razões, até pela maneira de construir a sua vida, contrastando afabilidade com momentos de rudeza e severidade, e indiscutivelmente pelo valor incontestável de suas obras.

Ao final, prostrado pelo cansaço, não resistiu mais na luta ferrenha que travou contra o câncer, vindo a falecer com dignidade – a qual nunca o abandonou – em 6 de setembro de 1981.

Encerro esta breve lembrança sabendo que não ofertei, aqui, a amigos tão diletos, o Bogliolo barbacenense todo, por inteiro – reconheço tal impossibilidade. Mas o que consegui evidenciar dá a medida do grande homem que ele foi.
Enaltecido o mestre, ainda gostaria de lembrar uma equipe que por aqui passou para ensinar Histologia, Embriologia, Patologia Geral e Anatomia Patológica – Washington Luiz Tafuri, Pérsio Godoy, Alfredo Barbosa, José H. Pitella, Edmundo Chapadeiro, Edison Reis Lopes, Fausto Lima, Celso Pedro Tafuri, Eduardo Bambirra, Geraldo Brasileiro Filho, Renato Maciel, Luiz Mauro e eu, professor e coordenador dos cursos ministrados. Cada um, a seu modo, seguiu as pegadas do mestre, sempre atento às idéias da juventude. Com a mocidade aprendemos a não envelhecer, a não aceitar a inverdade dita por alguém: "Senectus est morbus".

Barbacena, 16 de maio de 2008.

Pedro Raso